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domingo, 9 de agosto de 2015

Crónica dos dias da semana, ou as mil e uma maneiras de sermos controlados


Uma pessoa perde a conta à quantidade de formas como é controlada. Já é completamente normal que toda a gente saiba o que estamos a fazer, onde, com quem e durante quanto tempo. Toda a gente sabe o que gostamos de comer, se temos insónias, se fomos parar ao hospital, se casámos, divorciámos, traímos ou nos apaixonámos. Tornou-se normal contar a vida a quem a queira saber, sem vergonha nem filtro, gostamos de mostrar o que comemos, para onde viajamos, contar as nossas mais íntimas aspirações.
Somos todos cidadãos “livro-aberto”.
Na sociedade “facada-nas-costas”.
Estamos todos a precisar de um psiquiatra.
Habituámo-nos e é viciante. É uma nova forma de comunicar e sentimo-nos menos sós porque temos respostas. No tempo em que estamos todos sós falamos através de máquinas. Não falamos coisa nenhuma, mas iludimo-nos que sim. Sensibilizamo-nos com o interesse dos outros, mas na verdade os outros só querem mesmo é coscuvilhar a nossa vida. Tudo perdoado. Fazemo-lo exactamente pelas mesmas razões. Ninguém é inocente.
No meio de tanta informação, tanto acontecimento, tanta festa, tanto brinde, tanto amor perdido e abandonado nas redes sociais, há coisas que nos escapam. Habituamo-nos a imagens de fácil consumo, frases imediatas, competição ao prémio do mais óbvio, e tudo nos desabitua de pensar.
Há uns tempos o programa informático no meu emprego mudou. Agora somos diariamente felicitados com uma frase brilhante, uma citação bonita de gente já quase toda morta. Pela manhã sento-me no meu lugar, ligo o pc, levo logo com uma imagem maravilhosa de águas calmas e azuis (porque é Verão), e depois a dita frase. Tudo coisas positivas que não há cá negativismos no trabalho, excepto claro, o facto de já irmos para lá contrariados e a contar as horas para fazer o caminho inverso.
Frase lida. Começamos a trabalhar. Embirrei desde o primeiro dia com as ditas frases. Truques baixos do mundo empresarial para motivação imediata dos peões. Nada como embirrar com alguma coisa para começar a reparar com mais atenção. Tomar notas. Rir-me. A lata destes gajos.
E em jeito de conclusão da minha análise das frases motivacionais tenho a dizer que, somos subtilmente (mais ou menos) induzidos a entrar no estado de espírito da citação do dia. A dita citação não é escolhida à toa e detectei uma tendência para, em cada dia da semana, ser focado um propósito específico. Assim temos:
Segunda-feira: Planeamento;
Terça-feira: Produtividade;
Quarta-feira: Perseverança;
Quinta-feira: Trabalho de Equipa;
Sexta-feira: Felicidade;
Todas as semanas a mesma coisa. Um dia para cada ponto chave do trabalho exemplar. Sendo que à sexta-feira é-nos permitido ser felizes. No resto dos dias não há tempo para isso que temos de planear, ser produtivos e perseverantes em equipa. Para dar o litro. Sempre mais e mais. E com um sorriso nos lábios.
Eu se calhar era feliz todos os dias se não reparasse nestas merdas.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Comunicar. Ou tentar.


Estamos sempre contactáveis e podemos falar com toda a gente de várias formas. Temos centenas de amigos. Mas na verdade estamos sozinhos, ou melhor, somos nós e o computador, o tablet ou telemóvel. Nós e coisas. Coisas não são gente.
Todos os dias estou em contacto e falo com muitas pessoas. Não falo. Escrevo. Escrevo com um dedo em dispositivos que, muitas vezes, acham que eu quero dizer uma coisa (que não é o que eu quero) e mudam tudo. Escrita inteligente. Magia negra. Boicote.
Contacto com meio mundo mas na verdade não falo com ninguém. Conversar cara-a-cara, falar e ouvir fisicamente é coisa rara, antiga. Não há tempo. Em casa, sozinhos, podemos falar com muita gente ao mesmo tempo, normalmente sobre inutilidades, e, quando são conversas sérias, tendem a correr mal, pois ninguém vê ou sente o que dizemos. Só as letras a aparecer. Tem-me acontecido ser mal interpretada, ver as minhas próprias palavras desvirtuadas pela minha incompetência na comunicação virtual. Quando quero esclarecer um assunto, por exemplo, sou chamada de dramática; se explico uma coisa que fiz sou julgada antes que possa dizer porquê. É a tal coisa de não haver tempo, nem para explicações, só para suposições.
Complicada esta coisa de comunicar actualmente. Devia haver cursos, agora que há cursos para todas as coisas, pois de repente deixámos de saber fazer seja o que for, e temos de ter cursos, formações e mais uma data de balelas inúteis que nos roubam o tempo todo, e por isso temos de falar com máquinas, desculpem, através de máquinas.
Pois estes cursos poderiam preparar-nos para os mal-entendidos. Já há bonecos com expressões que podemos utilizar, mas quando o caldo se entorna e a discussão de instala, meus amigos, ninguém de lembra dos bonecos.
Eu sou perita nestas confusões. Preciso de um curso destes já. Gosto de opinar. E pior que opinar, gosto de esclarecer, o que muita gente chama de “se justificar”. E já sabemos o que significa quando alguém tem de se justificar… não é que eu ache que tenha, mas se o outro acha que eu o estou a fazer… Pronto, está tudo estragado. Quem se justifica tem culpas no cartório, nisso não há dúvidas.
Nesta era de não ter tempo, nesta teia em que nos enredámos, de querermos fazer tudo, inclusive aumentar as horas do dia, não fazemos nada, ou pelo menos, não fazemos nada bem.
Nós queremos ser como as máquinas que usamos. Nós estamos todos a endoidecer.
Alguém quer conversar comigo com as máquinas desligadas? Bem me parecia que não.