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domingo, 12 de julho de 2015

As andorinhas morreram todas esta noite

As andorinhas morreram todas esta noite.
Domingo triste sem os sons das crias no ninho e os voos das barrigas brancas acima dos meus olhos à janela. Não tive companhia hoje cedo. As leituras de Domingo são, agora, ainda mais sós.
Há silêncio. Mas ouço claramente os guinchos do ataque. Há sons que nos perseguem, que persistem, que fazem casa dentro dos ouvidos. E eu ouço o medo dentro do ninho. O alerta para o morcego do lado de fora. E eu, dentro do meu ninho, também tive medo do rato com asas colado à parede. E não fiz nada senão afligir-me da selva a acontecer na minha varanda.
O meu Inverno começou esta noite. Morreram as andorinhas, acabou-se a minha Primavera.

sábado, 11 de julho de 2015


Acordou e soube que tinha sorte por não haver ninguém. Por estar realmente só. Por não se sentir sozinha no meio das pessoas e das vozes, mas sim genuinamente só. Sem necessidade de sorrir e agradar e falar para não parecer estranha.
Abriu a porta, sentou-se no alpendre e sorriu da autenticidade daquele desejado vazio.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Fim do mundo


Todos os dias à mesma hora recebo uma mensagem.
Vem embrulhada em palavras bonitas e flutua num mar azul transparente.
Serve para me levar a fazer o que não quero, achando que quero, e contente.
Faço, sabendo qual é o lado mais fraco, mas viajo todo o dia do lado de fora da janela.
A distância para o fim do mundo é do tamanho do primeiro passo.

Casa isolada


Nunca te imaginaste numa casa isolada a viver da escrita?
Não sabia que estavas acordado, responde Joana sem se voltar.
Mauro observa-lhe as costas nuas, a tatuagem do mocho que ele desenhou bem ao centro das omoplatas, o lençol encorrilhado na curva das ancas, a pele muito branca. Apetece-lhe beijá-la.
Imaginaste?
Joana volta-se e olha-o. Sem pudor da nudez aproxima-se e enterra-lhe o rosto no pescoço, faz-lhe cócegas pelo queixo e desce ao peito. Ele ri-se e afasta-a. Que fazes, pergunta. Cheiro-te. Gosto do cheiro da tua pele, de ficar em cima de ti e lamber-te os lábios e morder-te os beijos. De te contornar as sobrancelhas com os meus dedos húmidos. Gosto-te tanto.
Imaginaste?
Gosto que me agarres e prendas com força. Não demasiada força mas força, quero estar presa mas poder sair se quiser. Não quero sair.
Aninha-se ao lado dele e abraça-lhe o braço.
Imaginaste?
Imagino em todas as horas de todos os dias da minha vida.

domingo, 5 de julho de 2015

Pormenores


Pintei as unhas dos pés. Por causa das sandálias novas.
Enquanto olho para as unhas coloridas a sala vai ficando composta.
Já não há lugares sentados. O ar fresco arrepia-me o pescoço nu e as costas mal escondidas.
Começa a música.
Um sorriso cola-se-me na cara cada vez que vejo um amigo chegar. Sorrio muito porque vieram muitos. Que bom. Os que não vieram fazem-me falta. Afasto esses pensamentos para engolir o nó na garganta.
Mudo de lugar. Para ouvir. Para falar do que fiz. Nada preparado nem pensado. A autenticidade pode arruinar-me. Confio no improviso e na inspiração. Arrisco. Não estou nervosa. Estou feliz.
Mas as emoções, esqueci-me delas, são arrebatadas pela primeira voz, que sente como eu este estar aqui. O bom de ser um começo. O medo de ficar só assim. O querer dizer a toda a gente que é isto, mas a voz tremer do bom que é sentir o que sinto, e não saber dizer como se quer tanto tudo aquilo em que se pensa.
Palmas e sorrisos e abraços e fotografias e dedicatórias. Reencontros, novos encontros, e encontro quem já tinha encontrado, mesmo sem nunca ter estado.
Foi bonita a festa, pá!

sábado, 4 de julho de 2015

Ouço o silêncio


Ouço o silêncio. Agora, que só restam uma ou duas vozes no fim da festa, eu ouço o silêncio da noite que, finalmente, cai sobre a casa.
Despedidas à varanda, acenos aos amigos que partem. A mesa em desordem, copos meio cheios e garrafas vazias. O eco das gargalhadas na minha cabeça, a visão dos sorrisos, o arrepio dos abraços. Fechar a porta e voltar ao início. Apagar a luz e ouvir. O silêncio.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Os livros levam-nos um ao outro


Os livros levam-nos um ao outro, disse ele. E eu fiquei a tarde toda a pensar nisso. Frase bonita, disse eu. Mas é pouco, apenas duas palavras que não chegam para o que eu gosto do caminho para ele.
Poderá o longe diminuir com os livros que nos guiam? Os que lemos à noite no silêncio dos olhos que olham livros e tudo o que mais podem, para guardar o perfil e o gesto, o sorriso, e as palavras dentro dos olhos. As que dissemos sem pensar. As que pensamos e não diremos. Mas que podemos escrever e guardar escondido. Ou dar. Sem medo que fiquem para sempre, mesmo depois de tudo passar.
E quando passar, pode ser que os livros nos levem, outra vez, um ao outro.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Casamento


Estou contigo porque gosto dos nossos dias todos iguais. Encontrei aquilo de que os outros fogem. Rotinas. Gosto de saber com o que posso contar. Controladora? Pouco aventureira? Todos gostamos do nosso canto, e o meu é na companhia dos nossos silêncios, das coisas que gostamos, de sermos uns bichos do buraco enquanto os outros exibem as suas vidas em festa.
Escrevo isto com as unhas da mão esquerda pintadas e as da direita por pintar. Aproveito estas linhas para o verniz secar. Parvoíces. Pintar as da mão direita é mais difícil, requer treino, aperfeiçoamento, engenho. Agora já o faço melhor. É como essas teorias das pessoas que vivem juntas, que superam crises e cedem e abdicam de coisas para ter outras. Eu faço o que me apetece, não cedo, sou mandona e parva. Não posso estar com alguém para ser o que não sou. Ao menos aqui, connosco, sou eu. Em outros palcos sou a actriz falhada que sabes, da tristeza frustrada do fim do dia, de saber que o dia seguinte será igualmente mau.

“Dói-me a garganta. Tu também minha querida.”
É por isto. Pela tua incondicionalidade mesmo quando não me ouves. Pela constante segurança expectável. Pela ausência de surpresas, que detesto. Ou só porque estás meio a dormir e já não escutas com clareza, mas mesmo assim respondes algo revelador deste segredo.

Fotografia de Rui Garrido

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espero por ti


Espero por ti. Há tanto tempo que espero por ti e nunca mais chegas. Ponho de lado a revista, pego no livro. Leio uma linha e levanto a cabeça a ver se vens aí. Nada. Levanto-me. Estico-me. Espero-te. Todos os dias desde há tanto tempo.
Então penso em ti. Ouço o teu riso na minha cabeça, como uma música que tenha gravado para nunca mais esquecer. E é esse riso feliz que me ampara de noite, quando adormeço no sofá e espero que o dia volte.
Sonho que me tocas e acordo. Em sobressalto. Mais uma memória, não és tu. Sou eu. Só eu. Está calor e abro a janela para a noite sem lua. O ar quente entranha-se na pele, formam-se gotas de suor no meu pescoço, que imagino serem os teus lábios, os teus beijos, o teu cheiro.
Regresso ao meu banco na estação. Levanto o olhar a cada comboio que chega, expectante quando as portas se abrem, e os passageiros ganham o chão do seu caminho. Eu estou aqui e tu? Virás? Passou algum tempo, não somos os mesmos. Passaram anos, demasiados talvez, outras pessoas. Pensarias em mim com outras? Eu pensei. Muitas vezes. Demasiadas. Por isso imagino o que poderia ter sido. Imagino incansavelmente. É esgotante pensar tanto. Querer sempre o que não se tem, achando que o que se quer é o que se merece.
Arrefece. Visto o casaco. Lembro a noite em que vagueámos sós pela cidade. De madrugada ficou mais frio, a noite engoliu o Verão só para os teus beijos me fazerem arder. Bebemos vinho ao pé do rio e o céu foi ficando mais claro. Uma noite é o ciclo do que quer que houve. Isso e a promessa do reencontro aqui, no mesmo lugar, uma experiência sociológica parva, todo este tempo atormentada pelo “se”. Se eu esperar ele também espera? Se eu for ele também vai? O dia chegou, eu estou aqui, com os sons daquela noite e o teu cheiro na memória.
||
De comboio o tempo passa devagar e eu tenho pressa de te ver. Porquê tanto tempo para este reencontro? Tanto tempo perdido à espera, enganando os dias com outros encontros e as noites com outras na minha cama. Éramos miúdos mas eu sabia, nessa noite, que estaria aqui, hoje, neste dia marcado.
Quando sair do comboio será da mesma forma? Virás contra mim sem veres por onde andas? Distraída com as malas procurando a linha, atrasada para o comboio. O comboio não esperou que os nossos olhos se largassem, e ficámos sós, a meio das viagens, numa encruzilhada de desejos novos.
Olho pela janela e reconheço a paisagem. Ainda estou longe e já procuro por ti. Virás ter comigo?

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Comunicar. Ou tentar.


Estamos sempre contactáveis e podemos falar com toda a gente de várias formas. Temos centenas de amigos. Mas na verdade estamos sozinhos, ou melhor, somos nós e o computador, o tablet ou telemóvel. Nós e coisas. Coisas não são gente.
Todos os dias estou em contacto e falo com muitas pessoas. Não falo. Escrevo. Escrevo com um dedo em dispositivos que, muitas vezes, acham que eu quero dizer uma coisa (que não é o que eu quero) e mudam tudo. Escrita inteligente. Magia negra. Boicote.
Contacto com meio mundo mas na verdade não falo com ninguém. Conversar cara-a-cara, falar e ouvir fisicamente é coisa rara, antiga. Não há tempo. Em casa, sozinhos, podemos falar com muita gente ao mesmo tempo, normalmente sobre inutilidades, e, quando são conversas sérias, tendem a correr mal, pois ninguém vê ou sente o que dizemos. Só as letras a aparecer. Tem-me acontecido ser mal interpretada, ver as minhas próprias palavras desvirtuadas pela minha incompetência na comunicação virtual. Quando quero esclarecer um assunto, por exemplo, sou chamada de dramática; se explico uma coisa que fiz sou julgada antes que possa dizer porquê. É a tal coisa de não haver tempo, nem para explicações, só para suposições.
Complicada esta coisa de comunicar actualmente. Devia haver cursos, agora que há cursos para todas as coisas, pois de repente deixámos de saber fazer seja o que for, e temos de ter cursos, formações e mais uma data de balelas inúteis que nos roubam o tempo todo, e por isso temos de falar com máquinas, desculpem, através de máquinas.
Pois estes cursos poderiam preparar-nos para os mal-entendidos. Já há bonecos com expressões que podemos utilizar, mas quando o caldo se entorna e a discussão de instala, meus amigos, ninguém de lembra dos bonecos.
Eu sou perita nestas confusões. Preciso de um curso destes já. Gosto de opinar. E pior que opinar, gosto de esclarecer, o que muita gente chama de “se justificar”. E já sabemos o que significa quando alguém tem de se justificar… não é que eu ache que tenha, mas se o outro acha que eu o estou a fazer… Pronto, está tudo estragado. Quem se justifica tem culpas no cartório, nisso não há dúvidas.
Nesta era de não ter tempo, nesta teia em que nos enredámos, de querermos fazer tudo, inclusive aumentar as horas do dia, não fazemos nada, ou pelo menos, não fazemos nada bem.
Nós queremos ser como as máquinas que usamos. Nós estamos todos a endoidecer.
Alguém quer conversar comigo com as máquinas desligadas? Bem me parecia que não.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Anti-balanço



Todos os anos, pelo final do ano, são divulgados inúmeros balanços, relatórios, pontuações e demais listas acerca de quase tudo o que de relevante se passou no ano que finda.
No meu caso estou mais atenta ao que se diz e escreve sobre livros. E muita coisa se relata. Nos blogues de livros é comum o balanço do número de livros lidos e as expetativas do número de livros a ler no ano prestes a começar. Depois há o ranking dos livros melhores, o favorito do ano e os que se lhe seguem.
Não é que ache mal e não pretendo opinar sobre tais descrições, eu própria já as fiz em anos anteriores. Mas este ano estou farta dessas contagens, pura e simplesmente não me apetece contar ou medir o número de palavras que li. Na verdade, este ano foram muitas as que deixei de ler, pelos vários livros que não concluí. Eliminei a culpa do livro inacabado, o peso na consciência de não ter levado uma leitura até ao fim. Se não me interessa deixo de lado, se não me emociona desisto. Há tantos livros bons à espera de serem lidos, que o tempo me ensinou a evitar torturas desnecessárias. O tempo que já passou e também o tempo que há-de vir, que não quero encurtar com leituras perdidas.
Gosto de poder dizer que li 52 livros num ano. Dá uma média de 1 livro por semana, o que me parece muito bom para quem, como eu, tem uma atividade profissional exigente e completamente descontextualizada dos livros. Sinto-me feliz por, mais um ano passado ter ultrapassado essa marca. Li pouco mais de 52 mas para mim é muito bom, não vale a pena empreender projetos megalómanos que só iriam acabar por me enlouquecer de frustração. Certamente iria acabar por ler à pressa esquecendo que o objetivo da leitura é enriquecimento interior, e não uma maratona ou competição com números de que acabaria por me tornar escrava.
Assim, em 2013, quero ler. Apenas ler com prazer e gosto livros que me marquem e façam feliz, livros que me ensinem e façam questionar. Quero ignorar rótulos e ler o que der vontade, de livros premiados a romances da treta, desde que cada virar de página me faça feliz.
Quero poder ler livros mais antigos, alguns que tenho na estante há anos e ainda não peguei porque se calhar cedo com facilidade a novidades, e me deixo levar por campanhas de marketing, capas bonitas e opiniões “exageradamente” boas. Fraquezas…afinal sou um ser humano.
Quero conhecer mais pessoas que gostem de livros, falar com elas e opinar, discutir e aprender. Descobrir novos autores. Ir a Feiras do Livro. Poder continuar a comprar livros, pelo menos de vez em quando, que só quem conhece este amor aos livros sabe a sensação de sair de uma livraria de mãos a abanar…
Quero ler melhor, em voz alta e em público, perdendo a vergonha e adquirindo técnica. E, acima de tudo, divertir-me ao fazê-lo. Por isso faço parte deste fantástico Clube de Leitura e desejo continuar.
E escrever. Escrever sobre livros, encher uma folha em branco de tudo o que senti ao ler um livro. O meu pequeno tributo escrito a esse objeto que me preenche enquanto leio, e que povoa a minha mente e os meus pensamentos mesmo nas horas que não estou a ler.
Quero ler sempre mais mesmo que o número de livros lidos seja cada ano menos. O que importa é o que fica, o que passa a fazer parte de mim.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Dar livros


Livros são o melhor presente que há. Gosto de os receber mas também gosto de oferecer. Exceto quando me pedem para dar um dos meus livros. Sentimento de posse? Sem dúvida. Os meus livros são objetos emocionais, mesmo os que não gostei têm o seu lugar na estante, o seu espaço especial na minha vida.
Desde há umas semanas que tenho alimentado um desafio, tornar-me mais desprendida e dar um livro. Um dos meus livros. A ideia não foi minha. Também não me foi imposta. Foi habilmente sugerida, sem pressões, que é a melhor forma de por alguém a pensar, como uma semente que se aloja na mente e germina algumas ideias.
Na última sessão do Clube de Leitura trocámos livros. Quem quis levou um livro para dar. Eu levei. Percorri o caminho da dúvida. Primeiro pensei em não levar. Depois questionei-me para o que seria e imaginei campanhas de angariação de livros para escolas e/ou países distantes, para crianças que nunca leram um livro. E aqui deixei-me levar pelo altruísmo. Tretas. Que eu continuava sem querer dar livro nenhum.
Mas o mais óbvio e lógico seria que o livro fosse para trocar entre nós, membros do Clube. Haveria mais alguém a sofrer de “possessão de livros crónica” como eu? Ai só de imaginar toda a gente a partilhar livros alegremente e eu ficar de fora também me desanimava…
Então pensei em escolher um livro mau para levar. Daqueles mesmo intragáveis, que detestei e deixei a meio, de que não fosse sentir muito a falta. Mas esta ideia não avançou. Não poderia dar um livro com tanta energia negativa a alguém, mesmo que o novo dono viesse a gostar dele eu não ficaria bem comigo.
Decidi não pensar mais nisso. Se sentia que esta oferta não me daria prazer, não deveria avançar para esse suposto estádio de libertador desprendimento. A verdade é que não me sentia nada liberta, estava cada vez mais doente com a ideia.
Na véspera olhei para a estante. E decidi. Dar um livro. Dos meus. Experimentar. Escolhi um bom livro: “História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”, de Luís Sepúlveda. Tinha dois, fiquei com uma edição mais recente, ilustrada. E dei, dei um livro. Não doeu. Não doeu demasiado. Além disso ganhei um livro, pois tratava-se realmente de uma sessão de trocas. Calhou-me um livro que já tenho, “Desgraça” de J.M.Coetzee. Há coisas caricatas, consegui ficar outra vez com um livro repetido!
Nota: no final da sessão troquei o livro com outra pessoa; uma espécie de exorcismo dos livros repetidos.

domingo, 11 de novembro de 2012

O Pior Livro - a minha estreia

A convite do Miguel Chaíça do blogue N Livros, que costumo acompanhar, escrevi um texto com o meu parecer sobre um livro que considero mau. Para mim esta foi uma nova experiência que considero enriquecedora.
Falar mal, neste caso escrever, também é estimulante, e fez-me pensar que é importante reflectir sobre os pontos menos positivos de todos os livros, mesmo daqueles que considero muito bons ou de que gostei muito. Focar todas as perspectivas é importante para aguçar o espírito crítico, desenvolver a originalidade e escrever melhor.
Transcrevo abaixo o meu texto, já publicado aqui.


Não me é fácil eleger um livro como o pior que alguma vez li. Simplesmente porque quando um livro não me interessa não o leio, deixo de parte, sem qualquer preocupação ou culpa por não chegar à última página. Pensei em escrever sobre um desses livros inacabados e desinteressantes que tenho vindo a deixar pelo meio, ou por vezes quase no início. Mas não achei certo, comecei a imaginar que um desses livros, umas páginas após o meu abandono, pudesse tornar-se algo fantástico. Seria muito injusto fazer uma má avaliação de um livro que, se eu tivesse insistido, me tivesse maravilhado e surpreendido.
Então, para evitar essas injustiças e possíveis pesos na minha consciência, decidi escrever sobre um livro que não gostei mas que li até ao fim. O esforço foi grande e a desilusão ainda maior.
Já li vários livros do José Rodrigues dos Santos e acho-os todos maus, apesar de alguns me terem proporcionado um certo entretenimento. “O Sétimo Selo” é péssimo; é o meu eleito para esta “cantiga de escárnio e maldizer”.
O meu interesse nesta leitura tem a ver com o tema – o aquecimento global e o futuro do abastecimento energético, e com a promoção que foi feita tendo como cenário a Antártida. Sinceramente achei que toda a ação do livro decorresse na Antártida, pela capa do livro, mas principalmente pela publicidade (enganosa) que foi feita com o próprio autor na Antártida. Lembro-me que, na altura, houve inclusive um suplemento da revista Volta ao Mundo com a viagem que o autor fez a esse ermo gelado para se inspirar na escrita do livro.
A Antártida fascina-me muito e deixei-me levar por essa ideia. Quando me apercebi que apenas seria feita uma curta referência inicial senti-me enganada.
Depois foi ler 500 páginas em que o autor se repete ao ponto de se tornar maçador, coloca informação “científica” de modo descabido – senti-me como se estivesse a dar uma volta num parque e de repente caísse dentro de uma enciclopédia, do nada surge excesso de informação trabalhada à pressa e que só serve para encher.
Não posso deixar de referir os lugares-comuns, o exagero de banalidades e cenas descritas sem a mínima envolvência literária. Um texto cru, sem beleza, que não me proporcionou prazer na leitura.
Há também a referir o personagem deprimente, Tomás Noronha, uma espécie McGyver tótó, que se safa das situações mais insólitas sem que se perceba como, e ainda chateia com os seus problemas pessoais e familiares.
Confesso no entanto a minha admiração pela capacidade de produzir livros de José Rodrigues dos Santos. Penso que tem editado um livro por ano, e todos com centenas de páginas, mantendo em paralelo uma atividade profissional intensa. Há quem diga (quem é mesmo muito mau, muito pior do que eu) que não é ele que os escreve, que existe uma equipa que faz toda a investigação e põe os livros em marcha. Não é descabido se pensarmos um pouco nisso mas sinceramente não me interessa. Não penso voltar a ler livros dele.
Maçador e desinteressante, este “O Sétimo Selo” é possivelmente um dos grandes culpados por eu decidir abandonar algumas leituras. Podem chamar-lhe trauma, mas a verdade é que com tantos livros para ler não vale a pena perder tempo a fazer sacrifícios.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Curso de Escrita Criativa


Uma experiência nova que me agradou e marcou. Se será um ponto de partida ou um "empurrão" ainda não sei, mas que aguçou (mais) a minha paixão pela leitura e pela escrita não há dúvidas.