domingo, 2 de outubro de 2011

Livros da Minha Infância

Os livros são, desde sempre, os presentes que me deixam mais feliz. Já gostava de livros quando ainda nem sabia ler, mas todos os dias o meu pai me lia uma história antes de dormir. Pequenita e ensonada ficava encantada a ouvir as histórias e a imaginar países distantes com príncipes, princesas, fadas e bruxas.
Aprendi a ler com grande facilidade e rapidamente comecei a coleccionar livros. Existem na minha família diversos amantes de livros, e tinha a sorte de os receber com frequência nos aniversários e Natais.
Cresci na Figueira da Foz, local onde está a casa da minha família e onde são religiosamente guardadas as minhas preciosidades literárias da infância. A maioria dos meus amiguinhos também gostava de livros, eram para nós um divertimento à altura de qualquer outra brincadeira. Tenho pena da distância e dos percursos distintos que tomámos, pois actualmente relaciono-me com muito poucos apreciadores de livros (excepto de forma virtual que, apesar de não ser a mesma coisa, sempre vai colmatando esse vazio).
Os primeiros livros que li tinham obviamente mais imagens do que letras. Lembro-me de os ler horas a fio, muitas vezes terminava e voltava logo ao início, encantada com as gravuras e com o que imaginava através das frases.  “O Casamento dos Passarinhos” era um dos meus favoritos nesta fase, mas havia mais como “Os Fatos Novos do Imperador” e os da Cristina (“Cristina Aprende a Nadar” e “Cristina Professora”). Agora, ao escrever este texto consigo lembrar-me de várias passagens e, inevitavelmente, sorrio com estas recordações tão queridas.
Um grande favorito era também o “365 Histórias de Encantar”, foi-me oferecido por uma professora primária e permitia a leitura de uma história por dia, coisa que nunca acontecia pois eu lia uma série de histórias de seguida.
Posteriormente fiz algumas colecções por iniciativa dos meus pais, que sempre me incutiram o gosto pela leitura. O meu pai comprava-me livros de aventuras, fez-me a colecção completa dos livros do Petzi, que nos proporcionou divertidíssimos momentos de leitura juntos. Já minha mãe, mais inclinada para os chamados “livros para meninas”, comprava-me livros da “Anita”. Gostava de ambos, possivelmente esta é uma das bases das leituras polivalentes que sempre fui fazendo, sem nunca me dedicar a um único estilo e tendo sempre vontade de conhecer coisas diferentes.
Fui crescendo e o género de livros foi mudando, adaptando-se à minha idade e às consequentes novas necessidades. Curiosamente comecei a ler livros que já existiam na infância dos meus pais e que continuaram a ser editados, como é o caso dos “Cinco” e dos “Sete”. Divertia-me muito com estas aventuras, sempre curiosa com o desfecho final. Por influência da minha tia (mais uma leitora compulsiva) alarguei os meus conhecimentos nos livros da Enid Blyton e fiquei completamente fã da colecção “As Gémeas”. Este ano alguns dos livros da Enid Blyton foram novamente editados, com umas capas mais atractivas e tipo de letra mais actual. Não tenho noção se esta “nova” colecção tem tido uma boa recepção pela nova geração de leitores, mas é quanto a mim, uma aposta excelente.
Como não podia deixar de ser, e à semelhança de quase todos os meninos da minha idade, coleccionava e lia os livros de “Uma Aventura”. Mas estes são apenas alguns exemplos pois fiz dezenas de colecções de literatura infanto-juvenil: “Carlota”, “Sissi”, alguma banda desenhada, livros educativos sobre diversos temas como Geografia, Robótica, Corpo Humano, O Universo, etc.
A certa altura os meus pais começaram a comprar-me outro tipo de livros, já que eu normalmente lia um livro de “Uma Aventura” no próprio dia em que mo compravam, já estava a precisar de saltar mais um degrau. Ofereceram-me então alguns clássicos em formato para criança, se é que isto se pode dizer assim. Eram uma espécie de resumo de livros conhecidos e conceituados como é o caso de “Jane Eyre” e “Mulherzinhas”. Gostei destas leituras mas continuava a ler tudo muito depressa, continuava a ler os livros novos com muita rapidez e logo ficava sem nada para ler, o que me deixava verdadeiramente desanimada.
Perante este cenário o meu pai sugeriu que eu lesse um Romance; um livro mais longo que duraria de certeza mais de um dia, e havia vários por onde escolher em minha casa… devia ter cerca de 13 anos quando li “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queiroz. Foi uma experiência completamente diferente para mim, apesar de não ser para a minha idade permitiu-me imaginar e viver muitas mais coisas do que os livros que tinha lido até então.
Desde essa altura têm sido centenas os livros que me acompanham diariamente e preenchem a minha vida de uma forma inigualável. Sou sem dúvida mais criativa, sonhadora, aventureira e perspicaz graças ao poder dos livros em estimular e desenvolver estas aptidões.
Os livros marcam-me desde a infância e tiveram um papel importante no desenvolvimento da pessoa que sou hoje. Gostava de ver nos jovens pais de hoje o carinho, cuidado e atenção em escolher livros para os filhos como eu tive dos meus pais. Foi possivelmente o melhor investimento que fizeram em mim.
Texto escrito para a rubrica “Livros da Minha Infância” do blogue Página a Página. Vejam aqui a publicação original, recheada de saudosas fotos escolhidas pelo Nuno Chaves.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Quem gosta de ler?

Muitas vezes me sinto deslocada e fora do contexto da maioria das conversas. Será por poucas pessoas gostarem de livros? Ou será por pouco me interessar pela maioria dos temas de conversa?
Detesto a chamada “conversa de circunstância”.O que interessa falar do tempo se basta olhar pela janela para ver que tempo faz? Penso que a maioria das pessoas se deixa intimidar pelo silêncio, pelo silêncio constrangedor num grupo, e então inventam, falam da primeira coisa que lhes ocorre só para preencher, ainda que de forma superficial, o tempo e o espaço vazio de conversas.
Sempre achei que mais vale não dizer nada do que perder tempo em divagações inúteis sobre o clima, doenças e dramas familiares, mas infelizmente vejo-me muitas vezes no meio de guerras de mães sobre as capacidades acima da média dos seus rebentos, discussões perfeitamente infrutíferas acerca de quem sofre mais ou tem as doenças piores. Raramente tenho o prazer de assistir a participar em conversas verdadeiramente empolgantes e interessantes.
Por percursos sinuosos do destino tenho o azar de passar demasiadas horas da minha vida rodeada de criaturas básicas e desinteressantes. A felicidade é que, quando me abstraio e isolo da ridícula sociedade de que faço parte, me sinto uma sortuda. Tenho sorte por poder escolher com quem verdadeiramente me dou, escolho quem gosto e me compreende, escolho com quem ter uma conversa com pés e cabeça, escolho com quem discutir a sério, defender um interesse, com quem rir, escolho com quem ser feliz, e sou!
Tenho pena por ter tão poucas pessoas com quem falar sobre livros, com quem discutir aquele pormenor que me deixou a remoer mas que fez aquele final fantástico, saber se há quem entenda o sofrimento de ter tantas coisas desinteressantes para fazer quando só apetece dar um pontapé em tudo e ler, ler, ler…
Haverá mais alguém que saiba o sofrimento que é ter de ir ao super-mercado quando se está mesmo mesmo a terminar aquele romance? E estar na longa fila para pagar e pensar que se podia estar a ler em vez de estar ali? O mesmo se aplica às limpezas e todo o género de arrumações…oh porquê tantas obrigações?
Sonho com o silêncio no fim de um dia ruidoso, anseio por preenchê-lo com um livro. Deixo-me consumir por tal desejo, imagino, fantasio e espero…espero …espero pela compensação de tanta espera!

domingo, 4 de setembro de 2011

Novos habitantes - Agosto 2011


A ideia não é inédita. Muitos outros blogues o fazem. Acho giro e vou começar a fazer também: dar a conhecer os novos livros cá em casa!
O mês de Agosto não correu nada mal, dos 6 novos livros 5 foram presentes de aniversário. A leitura avança devagar em proporção com as entradas de livros, destes 6 livros li 1 e vou a meio de outro.
A vontade de ler tudo consome-me!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O favorito do mês - Agosto 2011


Tive a ideia de começar a fazer uma espécie de balanço mensal dos livros lidos, um esquema do que mais me agradou e marcou. Tentar apontar um favorito.
Li apenas 3 livros este mês mas foram realmente muito bons: “O Tigre Branco”, “As Travessuras da Menina Má” e “A Noite de Todas as Almas”.
Cada um à sua maneira me proporcionou uma leitura excelente, mas tenho de admitir que a minha primeira leitura de um livro de Mario Vargas Llosa reúne quase tudo o que um leitor pode pedir. Temos uma narrativa perfeitamente enquadrada no tempo e nos acontecimentos históricos, as personagens são reais, ficamos convencidos que podia ser o nosso vizinho do lado, e depois é o dom, o dom de escrever e maravilhar quem lê, que foi o que senti.
O meu favorito de Agosto é “Travessuras da Menina Má” de Mario Vargas Llosa. Opinião mais pormenorizada aqui.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O cheiro dos livros?

Cheiro sempre os livros, mesmo os mais velhos e muito usados, já manuseados por várias pessoas. São livros cheios de histórias para além da sua própria história, até parece que das páginas se soltam vozes e risos (ou lágrimas).
O cheiro de um livro novinho é inimitável, aquele aroma a papel e a tinta até parece que dá para ouvir os sons das máquinas que os fazem, imagino as folhas de papel a circular por mecanismos barulhentos, as guilhotinas a cortar as folhas, uma sinfonia de sons para uma composição de letras. Nada é assim. Esta minha visão romântica das origens da impressa está ultrapassada, e eu sei disso, mas é tão irresistível imaginar…

domingo, 21 de agosto de 2011

A Ler "A Noite de Todas as Almas"


“- A que cheiro eu? – perguntei, brincando como pé do meu copo de vinho.
Por uns momentos pareceu-me que ele não ía responder. O silêncio estendeu-se até me olhar com uma expressão  anelante. Deixou tombar as pálpebras e inspirou profundamente.
-Cheira a seiva de salgueiro. E a camomila esmagada sob os pés. – Cheirou de novo e esboçou um pequeno sorriso triste. – Tem também alguns vestígios de madressilva e folha de carvalho tombadas – acrescentou em voz baixa, expirando – em conjunto com rebentos de avelã e os primeiros narcisos primaveris. E coisas antigas: marroio, incenso, pé-de-leão. Aromas que pensava já ter esquecido.
Abriu os olhos sem pressas e eu olhei para as suas cinzentas profundidades, receando respirar e quebrar o feitiço que as palavras dele haviam lançado.
-E eu? – devolveu ele a pergunta, sem desviar os olhos dos meus.
- Canela. – A minha voz era hesitante. – E cravinho. Por vezes parece-me que cheira a cravos, não do tipo que se compra na florista, mas os antigos, que crescem nos jardins das casas rurais inglesas.
- Cravos silvestres. – disse Mathew, os olhos enrugando-se de satisfação nos cantos. – Nada mau para uma bruxa.” (p. 183)

domingo, 7 de agosto de 2011

A neura dos livros


Gosto tanto de livros que me custa dizer o que quer que seja de menos positivo sobre eles. Mas a verdade é que nem sempre um livro nos toca da forma que esperávamos, ou nos envolve da maneira que possa ter envolvido outros leitores. Quando me acontece fico irritada e desiludida.
Esta semana aconteceu-me. Estava empolgada em ler “Antes de nos Encontrarmos” de Maggie O’Farrel que comprei recentemente. Iniciei a leitura com alguma expectativa dado que a opinião de outros leitores é bastante positiva. Li 197 páginas das 311. Gostei da escrita da autora, acho até que foi o que me “segurou” por mais de metade do livro. A forma como nos vai descrevendo as vidas das personagens deixando sempre algo em aberto, dando saltos temporais entre passado e futuro sem nunca deixar o leitor perder “o fio à meada” requer habilidade e inteligência. Mas a verdade é que (para mim) um livro tem de ter mais do que isso. Quando começo a pensar mais nos livros que tenho para ler do que naquele que é suposto preencher as minhas necessidades de leitura no momento, reconheço um claro sinal de insatisfação.
Quando assim é, e por muito que me custe, deixo de lado. Não digo que o deixe de lado para sempre que isso seria muito radical para o meu pobre coração amante de livros, mas deixo-o num local intermédio, uma espécie de purgatório dos livros, com um marcador na página onde parei, e deixo que o tempo me faça decidir se existe ou não regresso.
Inevitavelmente medito um pouco sobre se o problema é meu ou do livro e, como em qualquer história de amor, não se devem atribuir culpas mas sim seguir em frente. Foi o que fiz, comecei a ler “O Tigre Branco” de Aravind Ariga, uma excelente aposta. É um livro excepcional.