domingo, 1 de abril de 2012

Em Busca do Carneiro Selvagem - Haruki Murakami - Excertos


"- Alguma vez encontrou Deus?
 - Naturalmente. Falo com ele ao telefone todas as noites.
 - Desculpe? - comecei eu a dizer, mas às tantas já estava baralhado outra vez- - Se toda a gente desatasse a telefonar a Deus, haveria uma saturação de linhas e o número estaria sempre oucupado, como acontece com o serviço informativo a seguir à hora de almoço...
 - Isso não constitui motivo de preocupação. Deus é, por assim dizer, omnipresente. Por isso, mesmo que houvesse cem milhões de pessoas a ligar-lhe ao mesmo tempo, Deus falaria com todas elas.
 - Não estou muito dentro do assunto, mas tem a certeza que essa interpretação é ortodoxa? Quer dizer, do ponto de viste teológico?
 - Pode dizer-se que sou um radical. Por isso é que não frequento a Igreja.
 - Estou a ver." (pág. 159)

"- Quem me dera, também eu, partir em busca de qualquer coisa - confessou ele. - A verdade, porém, é que não saberia o que procurar. O meu pai, esse é uma caso diferente, uma vez que passou a vida inteira à caça de alguma coisa. ainda hoje , de resto, continua obececado com essa ideia. Desde pequeno que me lembro de ouvir contar, da boca dele,, histórias sobre um carneiro branco que lhe aperecia em sonhos. Por isso, convenci-me sempre de que era necessário ir à procura de alguma coisa que desse verdadeiro significado à nosa vida. É isso a vida, pensei. Uma busca permanente." (pág. 240)

domingo, 25 de março de 2012

Comboio para Budapeste - Dacia Maraini


"A minha mãe está a dar mostras de uma coragem que eu não esperava. ao passo que o meu pai parece desesperado. Não consegue perdoar-se por não ter ficado em Rifredi. Passa metade do tempo na cama. O tio Eduard foi deportado no mesmo comboio que nós e não sabíamos. Anda pelo gueto a apanhar beatas. Mas diz que se encontram muito poucas agora. Não há dinheiro para cigarros. O que mais me contraria é ter perdido os livros. Tinha mais de cem. A maior parte deles ficou na casa da Schulerstrasse em Viena. Não consegui trazer comigo mais de três ou quatro que enfiei na mala no último momento. Quase ao acaso. Agora leio-os e releio-os: Dickens, Grandes Esperanças, Pinóquio e Os Sofrimentos do Jovem Werther." (pág. 60)

sábado, 10 de março de 2012

O favorito do mês - Fevereiro 2011



Mais um mês em que o número de livros lidos foi de apenas 3, mas que, mesmo assim teve alguma variedade. As mais de 600 páginas de "A Vida Secreta das Princesas Árabes" tomou-me a maior parte do tempo de leitura, e revelou-se um dos relatos reais mais interessantes que já li. Por vezes chocante e cruel, longo e por isso mais perturbador, este conjunto de três livros antes editados em separado, conquistou-me e dificilmente o esquecerei.
Decidi ir opinando há medida que a leitura progredia:



domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret


Um livro que tenho cá em casa há uns dois anos e cuja leitura nunca concluí. Porque não quis. Porque é tão lindo que não quis nunca terminar, porque faz sonhar como um filme, é um livro que é quase um filme.
Agora que vi o filme estou em estado de encantamento! É a verdadeira magia do cinema inspirada num livro que já de si é mágico!
Eu cá continuarei a folhear este livro, aos bocadinhos, sem nunca chegar ao fim…


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Também me sinto uma vencedora


Decidi partilhar um texto que escrevi para participar no Concurso Literário Breve História de Amor, recentemente divulgado pelo Tiago Rebelo e pela Leya, e por diversos blogues dedicados aos livros, entre os quais o planetamarcia.
Fiquei muito feliz por divulgar e participar nesta iniciativa. Quando soube que, dentro de algumas regras (manter segredo para com os restantes membros do Júri e não votar em mim própria), também podia enviar um texto meu, a minha imaginação criou “Madalena”. Apesar de não ter tido qualquer voto na sessão final do júri, o meu texto foi incluído na shortlist final das 9 melhores histórias. Obrigada aos que gostaram e me fizeram sentir também uma vencedora. Estou muito feliz.
Deixo mais uma vez os parabéns à Marlene Ferraz, a vencedora com o texto “O Tempo é um Absurdo”, e abaixo convido-vos a ler o “meu Madalena”.
Madalena
“Passo a mão no espelho embaciado da casa de banho depois do duche e recordo aquele amanhecer em Paris. Feliz. Sentindo a tua suave respiração e o calor do teu corpo. A cama revirada, os lençóis no chão, o sol acorda um quarto e testemunha uma noite louca de paixão.
Paris será sempre nosso. A dividirmos um croissant, a bebermos champanhe nus, a fazer amor até todo o corpo nos doer.
Madalena, és a minha menina má. Com idade para seres minha filha, tiraste-me do torpor dos meus sessenta anos. Não prestas, acabaste com o meu casamento e afastaste de mim os meus filhos. Mas acordaste-me. Deste-me anos de vida. Nunca me amaste mas contigo vivi até achar que podia morrer e já tinha tudo.
Malvada Madalena dos longos cabelos loiros, feiticeira de fogo. Efémera felicidade, tão boa mas tão curta. Recordo e sorrio e quero mais. E ainda hoje, todos os dias te vejo e sonho o que poderia ter sido se me amasses como eu a ti, sem interesse em nada mais além de mim.
Vamos regressar às esplanadas à beira mar para almoços que duravam horas e eu me perdia na mulher que julgava que tu eras, e tinha quem me ouvisse e me sentia o teu Rei. O Rei do mundo e de todas as criaturas. Esqueci tudo na tua presença, dei-te tudo o que pedias e o que não pedias mas insinuavas…e conseguias…e até parecia que a ideia partia de mim…
Fui enganado, roubado, vivi iludido mas feliz. Fui escravo dos teus desejos, fiz tudo o que pedias, dei-te o meu amor mas tu só querias o meu dinheiro. Doeu-me saber que és uma total banalidade, escumalha sem princípios, usas o sexo e as palavras doces como arma mortífera direitinha ao meu coração. Adorava, ainda assim, morrer mais um pouco nos teus braços, beber mais um pouco desse teu viciante veneno que me acorda e dá vida como o sangue que alimenta um vampiro.
Madalena, aqui sozinho penso em ti e no que dançámos em Paris, quando fugimos para a cidade-luz com desculpas esfarrapadas de trabalho. Deixou de haver noite ou dia, horas de dormir ou de acordar. Foste o meu tudo, vivi para ti, enchi-te de amor e jóias, as segundas um preço a apagar pelo amor que nunca me deste.
Serás tu de alguém Madalena? Queres amor? Ou chega-te viver assim a planear o próximo golpe com “olho” nuns sapatos de € 1000,00? Como aqueles que deixaste para trás em Paris, debaixo da cama do nosso quarto, e eu quase acreditei que o que importava para ti éramos nós, sem sapatos, nem roupa, nem jóias, nem nada…só nós…esquecendo o resto do mundo e vivendo intensamente.
Mentirosa Madalena, deste-me vida. Amo-te apesar da dor. Odeio-te para lá do sofrimento. Mas aprendi que estou vivo e ainda tenho tempo. Tenho muito para dar e quero encontrar ainda muitas vezes o amor, ainda que em breves histórias de loucura e tortura, quero sentir-me vivo, renascer cada manhã e viver.
Tremo de frio. O espelho já não está embaciado. Estou só. Triste mas não arrependido. Ainda me faz sorrir a nossa breve história de amor.”

domingo, 5 de fevereiro de 2012