quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Terei coragem?


Tiro o mapa da pasta para ter alguma coisa para fazer e evitar observá-la. O contraste dos cabelos negros com a pele muito branca e o vestido vermelho são um íman para os meus olhos. O que fará aqui sozinha? Estará também no hotel?
De repente vejo o empregado ao meu lado para anotar o pedido. Não o vi chegar. Não li a ementa mas pego-lhe de novo e aponto para uma coisa qualquer que não percebo o que seja.
Finalmente olho para ela. Olho-a de frente e fixo o olhar, como se fosse um jogo infantil em que vence o mais forte. Recua, baixa os olhos. Parece incomodada o que me deixa ainda mais nervoso. Estou demasiado desconfortável e sinto que está a chegar mais um ataque de pânico, perco o controlo dos meus próprios movimentos e deito o copo de vinho ao chão. O líquido espalha-se no tapete. Olhamo-nos ao mesmo tempo e eu sei que chegou o momento de sair. Num impulso pego na pasta mas cai tudo. Guardei as coisas lá dentro sem a fechar. Apanho o telemóvel e a chave do quarto do chão, guardo também o mapa e alguns folhetos turísticos, visto o casaco e saio. O meu coração parece um tambor, gotas de suor formam-se na testa, o cabelo bate-me nas costas tal é a força que faço com os pés no chão e a velocidade com que me movo.
Tenho de ser rápido. Receio não chegar ao quarto a tempo. Finalmente a porta do elevador abre-se, e eu caminho em ritmo rápido pelo corredor. Só tenho tempo de entrar no quarto, abrir a porta da casa de banho, levantar a tampa da sanita e vomitar.
Lavo a cara e recomponho-me. Sento-me no chão enquanto seco o rosto. Largo a toalha e abro o cofre que está dentro do armário, marco o código e a porta abre, tiro a arma e olho-a, seguro-a com as duas mãos e pergunto-me se terei coragem.
Decido ligar ao detective. Já é tarde mas não posso adiar mais. Procuro o cartão na pasta, nos bolsos do casaco e das calças, sento-me na cama e apoio a cabeça nas mãos. Perdi o cartão. Qual era o nome dele? Ivan? Ivan qualquer coisa…

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Onde estás Sara?


Está sozinha à mesa. Olha-me sem disfarçar. Os olhos negros entram pelos meus, que fogem sem ter para onde. Tapo o rosto com a ementa. Desvio-a de vez em quando mas o olhar de falcão continua a ameaçar-me. O vestido vermelho faz-me o coração correr, batendo-me forte nas têmporas. Viro a página da ementa e já cheguei às bebidas, sem ter sequer visto os pratos.
Olho pela janela mas a escuridão é total. Inundou o campo verde onde as ovelhas pastavam esta tarde. Esta tarde em que passeei sozinho nos momentos nossos, ou que seriam nossos. Sentei-me numa rocha e procurei um trevo de quatro folhas num molho que arranquei, com força, da terra. A minha falta de sorte não é novidade, mas a esperança de te ver aparecer no carreiro e vir ao meu encontro, fez-me ficar horas ali. Tantas, que o frio avançou pelo meu corpo galgando-me a vida. A minha alma morreu quando desapareceste, o meu corpo podia ter ficado ali, com um molho de trevos azarados na mão.
Pouso a ementa e evito olhar a mulher, mas sei que continua a observar-me. Deve olhar-me as tatuagens e imaginar significados. Lembro-me do dia em que tatuei a estrela na mão, o dia em que soube que no meu céu haveria sempre, pelo menos, uma estrela. És tu. Ainda és. Estaríamos casados agora, sentados a esta mesa a rir dos nomes estranhos na ementa. Desde que cheguei que não entendo uma palavra escrita ou falada. Mas que fazer? Era neste fim do mundo que querias passar a lua-de-mel. Toco na estrela e penso se haverá alguém, além de mim, que faça, sozinho, a viagem de lua-de-mel planeada, depois de um casamento que não aconteceu. Onde estás Sara? Eu vim para te encontrar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Ivan


Está sozinho à mesa. Segura a ementa com as duas mãos e eu, na mesa em frente, só lhe vejo a testa e as mãos tatuadas. Uma estrela nas costas da mão direita, só o contorno, vazia, sem preenchimento. Uma palavra circula-lhe a base do polegar, imagino um nome, alguém com um significado especial talvez, estou longe para perceber.
Vira a página da ementa e um anel largo, de ouro, com uma pedra quadrada, brilha-lhe no anular. Muda de posição e, ligeiramente de perfil, sobressai-lhe a cabeleira longa, farta, já grisalha nas fontes. A parte superior presa no alto da cabeça faz aparecer uma tatuagem que, imagino, lhe ocupe a parte de trás do pescoço. Uma frase? Um nome? Um local?
Os fios pesados e grossos tapam-lhe as costas. A indumentária negra confere-lhe um ar pesado, que poderia ser assustador se não fossem os olhos tristes que agora se desviam da ementa e olham, vazios, pela janela.
Pousa a ementa. Tira de uma pequena pasta rectangular, de pele preta, um mapa da cidade e alguns folhetos com atracções turísticas. O empregado aproxima-se e ele, distraído com os desenhos das ruas coloridas, nem se apercebe que um homem alto, elegante e muito direito, aguarda, discreto, pelo pedido.
O empregado, desconfortável, move-se de modo a ser notado. Resulta e ele pega novamente na ementa. Faz o pedido apontando os pratos, nitidamente desconfortável por não saber a língua local.
Novamente só, olha em redor e os nossos olhos cruzam-se. Baixo os olhos para o prato, incomodada por ter sido apanhada a observá-lo tão descaradamente. Sinto-o curioso, sei que me observa, num gesto desastrado o seu copo cai no chão. O tapete absorve o líquido carmim, que se espalha em pequenos rios pelas riscas da alcatifa. Olhamo-nos. Visivelmente perturbado pega na pasta com intenção de ir embora. O telemóvel e a chave do quarto caem pelo fecho ainda aberto. Apanha os haveres do chão com pressa, evidenciando um estado de nervos sem justificação. Acho-lhe piada e sorrio para dentro, cada vez mais intrigada com este homem solitário de comportamentos estranhos, quase infantis.
Já de pé pega no casaco comprido, preto, que estava pousado nas costas da cadeira e, num gesto ágil, veste-o. Pega na pasta, já fechada e com tudo guardado, e sai da sala. Observo-o de costas, o andar apressado como se fugisse, fazendo com que as abas do casaco fiquem para trás e balancem à medida que se desloca. Um vulto negro de cabelos longos a desaparecer pelas portas de vidro da sala de jantar.
O empregado volta. Segura a bandeja com o jantar. Olha-me de forma interrogativa e eu encolho os ombros fazendo um esgar esquisito com a boca. Olha em redor e, desistindo, regressa com a bandeja para a cozinha.
Reparo num cartão-de-visita caído no chão. Levanto-me e apanho-o. Observo e sinto a textura com relevos do papel sofisticado. Francês, penso. Ivan, repito sussurrando.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Os favoritos de Outubro e Novembro

 

Outubro foi, definitivamente, o mês da negligência aqui no blogue. Não há imagem de novos habitantes nem havia referência ao favorito do mês. "Flores", de Afonso Cruz, foi o que de melhor li em Outubro. "O Caçador do Verão", de Hugo Gonçalves, é a leitura eleita de Novembro; ainda não há opinião publicada porque isto de ir de férias faz muito mal! :)
Recomendo muito. Ambos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Novos Habitantes - Novembro 2015


Novembro foi um bom mês, mas Outubro foi ainda melhor. Infelizmente apaguei (sem querer) as fotos dos habitantes de Outubro e, por preguiça (já estavam todos arrumados e organizados por ordem nas estantes), não repeti as fotos.
Ficam os habitantes chegados em Novembro, que recebi, como sempre, de braços abertos.

Nota: após publicação do post verifiquei que, por lapso, não incluí na foto"A Hora Solene", de Nuno Nepomuceno. O livro andava a ser lido a quatro mãos e não respondeu "presente" quando o chamei para a fotografia.
Em jeito de compensação deixo o link para a minha opinião publicada e, claro, a recomendação da sua leitura.

domingo, 29 de novembro de 2015

Eu, Maria Ana

Já saíram todos. Mas eu ainda ouço as vozes e os risos na minha cabeça. Doí-me a cara de forçar o sorriso. O batom custa a sair e espalha-se para lá das fronteiras dos lábios como se eu fosse um palhaço de boca disforme e cómica. Olho para os sapatos caídos no canto e sinto o ardor de uma bolha que se formou no calcanhar. Sento-me. Olho-me ao espelho e procuro na Maria Ana que me olha o que ficou dos sonhos da menina que meteu a vida num smart naquele dia de chuva.
Levanto-me e olho as roupas no cabide. Toco as plumas leves e suaves da gola do terceiro acto. Faz-me comichão no nariz e tenho de encolher o espirro no meio das falas. Desvio a cara para o lado oposto ao público e imagino-me a pegar fogo à gola quando chegar ao camarim.
Abro a gaveta e procuro algo normal para vestir. Algo que me esvazie das personagens com quem vivo. Está um embrulho em cima do móvel. Tem uma fita vermelha que termina num laço. Sei que é um livro. Procuro um cartão. Uma pista. Um sonho que possa agarrar, guardar, e saber que foste tu.
Eu vi-te na plateia. Estavas um pouco escondido. Procuro-te em todas as sessões. Desta vez, antes do pano subir, antes de me colocar na minha posição, procurei uma vez mais por ti, desejando que a amizade seja maior do que a mágoa. Tremi quando te vi. Por me enganar nas vezes que não vieste, dizendo que não é importante, apagando o desejo de receber um sinal só para não me desiludir.
Quando segurei o livro contra o peito, virada para ti, pegava-lhe com muita força para não se notar que as minhas mãos tremiam. Puxei do vozeirão para abafar a emoção das falas ditas a duas vozes. Na minha cabeça ouvia o meu eco. Eras tu.
Desta vez o palco foi nosso, como o foi tantas vezes ainda antes de haver palco, na tua sala, no meio de papéis espalhados, o único lugar onde fui princesa e me senti rainha de alguma coisa.
Pego no embrulho e desejo ainda mais que seja teu. Largo-o e não o abro para o delírio durar mais um pouco. Observo-o e deito-me a adivinhar que livro será, e viajo para as estantes cheias de pó daquele Alfarrabista onde íamos juntos procurar peças de teatro. Inspiro e consigo sentir o cheiro abaunilhado dos livros de folhas gastas, com histórias escritas e histórias das mãos que os viveram.
Num impulso pego no embrulho e puxo uma ponta do laço vermelho. O papel abre de imediato como se o laço fosse mágico e uma vez desfeito todos os tesouros ficassem à vista. O livro não tem capa e as páginas estão manchadas. Cheira a Invernos à lareira e chá quente. É o meu favorito, para juntar aos outros, todos o mesmo. Agora sei que foste tu. Que estiveste aqui, real, mas invisível para mim. Ou então fui eu, que naquele dia de chuva, decidi não te ver mais.
Arrumo o livro na gaveta e guardo com ele os sonhos. Visto o casaco. Calço os sapatos. Os mesmos, os que fazem doer, porque eu sei que aguento. Porque quero sofrer só mais um bocadinho por não te ter. Apanho o sorriso que fugiu. Há pessoas à minha espera.

sábado, 21 de novembro de 2015

Sou invisível, Maria Ana


Desce o pano e eu olho para o livro que tenho no colo. Embrulhado por mim. Uma fita vermelha que termina num laço. Foi naquele alfarrabista onde íamos juntos procurar peças de teatro. O Black ficava à porta enquanto nós vasculhávamos estantes de livros gastos pelo tempo, os que tu mais gostavas.
Comprei-te um livro sem capa e com as páginas manchadas, velho das mãos e dos olhos que o consumiram. Um livro com história, dirias tu de olhar a brilhar, a cheirar a Invernos à lareira e chá quente. É para a tua colecção, se ainda a fizeres. A tua colecção de exemplares do mesmo livro, o teu favorito. É uma edição rara, disse-me o senhor da loja. Eu não sei. Sem ti não percebo nada de livros. No outro dia fui a uma livraria comprar um livro para mim e senti-me perdido. Segui o conselho do livreiro e saiu-me um policial cheio de sangue que me deixou toda a noite de olho arregalado na porta da entrada. O que te irias rir de mim. Se soubesses. Se eu to pudesse contar. Se quisesses saber.
Acordo dos pensamentos e vejo-me só na plateia. Levanto-me e procuro o acesso aos camarins. Ocorre-me que talvez não me deixem entrar. Sigo por uma porta e imagino-me invisível. A actriz que fez de tua tia vem na minha direcção. Encolho-me por dentro. Nada me diz. Sou invisível.
Espreito por uma outra porta de onde me chegam vozes e risos. O teu riso. Generoso como um rio que galga as margens. E vejo-te rodeada de pessoas e flores. Há champanhe e copos numa mesa. Estás de costas, ainda de cabelos loiros. Os sapatos descansam-te dos pés caídos num canto. Seguras flores e um copo enquanto dás sorrisos de batom vermelho. Recebes um beijo na mão e o espelho conta-me que retribuis com o olhar de pestanas longas, sensual e carente, quase sonolento. Fora do palco o olhar já é o teu?
Pouso o livro num móvel alto ao pé de um cabide com roupas. Passo os dedos por uma gola de plumas. Leves e suaves. Quase como se não existissem ou as minhas mãos as pudessem atravessar. Olho uma última vez para o livro e penso se darás por ele, se saberás que fui eu. Saio. De onde nunca estive. Sou invisível.