domingo, 6 de dezembro de 2015
Novos Habitantes - Novembro 2015
Novembro foi um bom mês, mas Outubro foi ainda melhor. Infelizmente apaguei (sem querer) as fotos dos habitantes de Outubro e, por preguiça (já estavam todos arrumados e organizados por ordem nas estantes), não repeti as fotos.
Ficam os habitantes chegados em Novembro, que recebi, como sempre, de braços abertos.
Nota: após publicação do post verifiquei que, por lapso, não incluí na foto"A Hora Solene", de Nuno Nepomuceno. O livro andava a ser lido a quatro mãos e não respondeu "presente" quando o chamei para a fotografia.
Em jeito de compensação deixo o link para a minha opinião publicada e, claro, a recomendação da sua leitura.
domingo, 29 de novembro de 2015
Eu, Maria Ana
Já saíram todos. Mas eu ainda ouço as vozes e
os risos na minha cabeça. Doí-me a cara de forçar o sorriso. O batom custa a
sair e espalha-se para lá das fronteiras dos lábios como se eu fosse um palhaço
de boca disforme e cómica. Olho para os sapatos caídos no canto e sinto o ardor
de uma bolha que se formou no calcanhar. Sento-me. Olho-me ao espelho e procuro
na Maria Ana que me olha o que ficou dos sonhos da menina que meteu a vida num
smart naquele dia de chuva.
Levanto-me e olho as roupas no cabide. Toco
as plumas leves e suaves da gola do terceiro acto. Faz-me comichão no nariz e
tenho de encolher o espirro no meio das falas. Desvio a cara para o lado oposto
ao público e imagino-me a pegar fogo à gola quando chegar ao camarim.
Abro a gaveta e procuro algo normal para
vestir. Algo que me esvazie das personagens com quem vivo. Está um embrulho em
cima do móvel. Tem uma fita vermelha que termina num laço. Sei que é um livro. Procuro
um cartão. Uma pista. Um sonho que possa agarrar, guardar, e saber que foste
tu.
Eu vi-te na plateia. Estavas um pouco
escondido. Procuro-te em todas as sessões. Desta vez, antes do pano subir,
antes de me colocar na minha posição, procurei uma vez mais por ti, desejando
que a amizade seja maior do que a mágoa. Tremi quando te vi. Por me enganar nas
vezes que não vieste, dizendo que não é importante, apagando o desejo de
receber um sinal só para não me desiludir.
Quando segurei o livro contra o peito, virada
para ti, pegava-lhe com muita força para não se notar que as minhas mãos
tremiam. Puxei do vozeirão para abafar a emoção das falas ditas a duas vozes.
Na minha cabeça ouvia o meu eco. Eras tu.
Desta vez o palco foi nosso, como o foi tantas
vezes ainda antes de haver palco, na tua sala, no meio de papéis espalhados, o
único lugar onde fui princesa e me senti rainha de alguma coisa.
Pego no embrulho e desejo ainda mais que seja
teu. Largo-o e não o abro para o delírio durar mais um pouco. Observo-o e
deito-me a adivinhar que livro será, e viajo para as estantes cheias de pó
daquele Alfarrabista onde íamos juntos procurar peças de teatro. Inspiro e
consigo sentir o cheiro abaunilhado dos livros de folhas gastas, com histórias
escritas e histórias das mãos que os viveram.
Num impulso pego no embrulho e puxo uma ponta
do laço vermelho. O papel abre de imediato como se o laço fosse mágico e uma
vez desfeito todos os tesouros ficassem à vista. O livro não tem capa e as
páginas estão manchadas. Cheira a Invernos à lareira e chá quente. É o meu
favorito, para juntar aos outros, todos o mesmo. Agora sei que foste tu. Que
estiveste aqui, real, mas invisível para mim. Ou então fui eu, que naquele dia
de chuva, decidi não te ver mais.
Arrumo o livro na gaveta e guardo com ele os
sonhos. Visto o casaco. Calço os sapatos. Os mesmos, os que fazem doer, porque
eu sei que aguento. Porque quero sofrer só mais um bocadinho por não te ter.
Apanho o sorriso que fugiu. Há pessoas à minha espera.
sábado, 21 de novembro de 2015
Sou invisível, Maria Ana
Desce o pano e eu olho para o livro que tenho
no colo. Embrulhado por mim. Uma fita vermelha que termina num laço. Foi
naquele alfarrabista onde íamos juntos procurar peças de teatro. O Black ficava
à porta enquanto nós vasculhávamos estantes de livros gastos pelo tempo, os que
tu mais gostavas.
Comprei-te um livro sem capa e com as páginas
manchadas, velho das mãos e dos olhos que o consumiram. Um livro com história,
dirias tu de olhar a brilhar, a cheirar a Invernos à lareira e chá quente. É
para a tua colecção, se ainda a fizeres. A tua colecção de exemplares do mesmo
livro, o teu favorito. É uma edição rara, disse-me o senhor da loja. Eu não
sei. Sem ti não percebo nada de livros. No outro dia fui a uma livraria comprar
um livro para mim e senti-me perdido. Segui o conselho do livreiro e saiu-me um
policial cheio de sangue que me deixou toda a noite de olho arregalado na porta
da entrada. O que te irias rir de mim. Se soubesses. Se eu to pudesse contar.
Se quisesses saber.
Acordo dos pensamentos e vejo-me só na
plateia. Levanto-me e procuro o acesso aos camarins. Ocorre-me que talvez não
me deixem entrar. Sigo por uma porta e imagino-me invisível. A actriz que fez
de tua tia vem na minha direcção. Encolho-me por dentro. Nada me diz. Sou
invisível.
Espreito por uma outra porta de onde me
chegam vozes e risos. O teu riso. Generoso como um rio que galga as margens. E
vejo-te rodeada de pessoas e flores. Há champanhe e copos numa mesa. Estás de costas,
ainda de cabelos loiros. Os sapatos descansam-te dos pés caídos num canto.
Seguras flores e um copo enquanto dás sorrisos de batom vermelho. Recebes um
beijo na mão e o espelho conta-me que retribuis com o olhar de pestanas longas,
sensual e carente, quase sonolento. Fora do palco o olhar já é o teu?
Pouso o livro num móvel alto ao pé de um
cabide com roupas. Passo os dedos por uma gola de plumas. Leves e suaves. Quase
como se não existissem ou as minhas mãos as pudessem atravessar. Olho uma
última vez para o livro e penso se darás por ele, se saberás que fui eu. Saio. De
onde nunca estive. Sou invisível.
domingo, 25 de outubro de 2015
Nunca me viste, Maria Ana
Subo as escadas e procuro a minha cadeira.
Fila L, lugar 23. Não tenho grande visão mas não faz mal, que se te vejo mal
pior me verás tu, e ainda bem, penso. A verdade é que não me verás de todo, nem
nesta plateia, nem se fosse ter contigo ao camarim. Nunca me viste, Maria Ana,
pelo menos nunca para além do óbvio, nunca para além do meu corpo magro e
desengonçado, dos meus piropos banais, do meu amor imenso por ti.
Sento-me e sinto desconforto. Um frio na
barriga antes de subir o pano. Imagino para lá do palco e vejo-te, a tez muito
branca e lisa, camaleónica depois da maquilhagem. Observei-te tantas vezes à
socapa a fazer o risco por cima dos olhos, a forma como davas um jeito à boca e
esticavas a pálpebra com a outra mão. E agora imagino-te no teu robe branco e
sedoso, que te cai nos ombros estreitos como se fizesse parte do teu corpo,
vejo a pequena gota de suor que te nasce no peito, entre os seios, como um
sintoma da ansiedade que de imediato eliminas com os dedos de unhas curtas,
pintadas de vermelho.
Levantas-te. O robe cai. O teu corpo recebe a
roupa do outro corpo com que sobes ao palco. Colocas a peruca longa e loira e
apagas o que resta de ti. Renasces. Sobes aos sapatos, sais para o corredor,
segues para a tua posição atrás do pano e eu sei que já lá estás, que só este
pano vermelho, pesado e grosso me separa de te ver. E então sufoco-me na incerteza
de te ver ou sair, ir embora e evitar a onda que me vai derrubar quando te vir.
Sobe o pano. Fico. Por medo de me arrepender.
Porque tenho de te ver.
É uma sala e tu está sentada num sofá em
frente à lareira, lendo. Viras uma página e choras. Olhas o fogo. Levantas-te e
aproximas das chamas um papel que estava dentro do livro. Afastas-te enquanto
arde, as mãos segurando o livro contra o peito, virada para a plateia, virada
para mim, olhando-me, dizes, dizemos juntos, eu sei o que vais dizer, eu sei
todas as tuas falas dos nossos ensaios em minha casa. Eu digo, tu dizes “Que
este fogo me consuma como queima a tua carta”. Recebo uma cotovelada da senhora
ao meu lado. Olho-a e vejo o seu olhar furioso por cima dos óculos com lentes
progressivas, o dedo indicador na vertical em frente ao nariz e aos lábios. Falei
alto. Mais alto do que pensei que falei.
No palco ainda choras, frágil. Quem me dera
que fosses esta personagem, frágil, a chorar de amor queimando a minha carta.
Mas tu és a mulher que me deixou sozinho com
a sala cheia de peças de teatro. Que, quando perguntei porquê, porque é que tens
de ir, porque é que não continuas a fazer o que gostas mas aqui, me respondeu –
Porque eu decidi que vou, e vai ser como eu decidi.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Nada de ti aqui, Maria Ana
Ainda não passou um mês e já não há nada de ti
aqui, Maria Ana.
Só eu, que continuo teu.
Da janela ainda te vejo a arrumar as últimas
malas no carro. Inventei uma desculpa para não te ajudar mas estava exactamente
aqui, escondido atrás da cortina, vendo-te enfiar a vida num Smart, debaixo da
chuva de um dia triste, o Black a latir e a chapinhar com as patinhas nas poças
da estrada.
Quase um mês sem vos ouvir subir pelo prédio
ao fim do dia. O Black com a trela solta batendo escada acima, e os tacões das
tuas botas pretas marcando o teu passo sempre apressado, talvez dois degraus de
cada vez para o arreliar numa corrida que no fim o deixavas ganhar. E eu ficava
à espera, sabendo que, depois de entrares em tua casa, pousares o casaco e a
boina, retocares o batom vermelho e penteares as pestanas, virias para aqui com
os textos e os planos e os sonhos.
Esta sala era o teu palco. Eu fui o teu
primeiro público, e serei o teu eterno público, mesmo se um dia as luzes do
palco se apagarem para ti, e o sonho não se cumprir, e as palmas não se fizerem
ouvir, eu continuarei atrás da cortina a olhar o estacionamento vazio com o sonho
a forçar a imaginação de te ver chegar.
Lia as falas contigo. Dizias que
contracenávamos mas eu era um miserável ponto, daqueles que falham os tempos e
se perdem nas páginas da peça. O problema é que me perdia na tua luz e ficava
surdo na tua gargalhada, mesmo a gargalhada encenada, falsa, enganosa, perfeita
de trabalhada, capaz de te sair da alma em pranto.
Maria Ana, tenho saudades de ser só eu a
gostar de ti. De não receberes cartas, e-mails e flores dos admiradores que não
sabem quem és e que te querem sem te conhecer. Que são enganados pelas tuas
personagens, pela falsidade com que te inventas para pisar, uma vez mais o
palco, ficando tu, Maria Ana, à espera do fim, no camarim.
domingo, 11 de outubro de 2015
O favorito do mês - Setembro 2015
Este é um favorito sem opinião escrita. Sem vontade de encher a página branca depois de lido. Raro. Mas acontece.
Gostei da premissa. Gostei de como a ideia é trabalhada. Gostei de pensar nas possibilidades e de as emparelhar com a realidade. Gostei de sentir medo, porque o terror está bem conseguido. Gostei de colocar em causa, porque penso e acredito.
Não gosto do Michel Houellebecq e gostava de me ter esquecido disso mais vezes durante a leitura. Mas é difícil gostar da escrita de quem não se gosta e eu gosto. E por isso este livro sobe ao pódio este mês. A minha imparcialidade é imperfeita, mas não tenho dúvidas de que o livro é brilhante.
sábado, 3 de outubro de 2015
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