domingo, 6 de março de 2016
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Segredos
Os segredos pesavam-lhe.
Fechava-os no coração, mas sabia
que é inevitável espreitar pelo buraco da fechadura.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Novos Habitantes - Janeiro 2016
E assim começa 2016, com os primeiros quatro livros de Janeiro. A vontade é, como sempre, de pegar em todos ao mesmo tempo...
domingo, 24 de janeiro de 2016
Fim
Silêncio. Absoluto silêncio. Não sinto o frio mas
estou numa gaveta gelada. É mais ou menos como as dos filmes mas menos
cinematográfica, mais velha e usada, menos brilhante. Se calhar é porque estou
dentro deste filme. Tenho uma etiqueta no dedo do pé. Fui aberto e cozido. O
médico falava do jogo de ontem enquanto registava os dados do meu aneurisma
cerebral. É estranho saber, já depois de morto, que tenho, ou melhor, tive um
aneurisma cerebral, que na verdade podia ter morrido a qualquer momento, se
calhar já há muito tempo. Agora, dentro da gaveta da morgue, teço considerações
banais sobre a vida, em como este facto, se o tivesse sabido, teria mudado a
minha postura. Teria? Teria mesmo sido suficiente para me fazer aproveitar
melhor, nem que fosse só um pouco, os meus dias? A possibilidade de morrer a
qualquer momento, se eu tivesse alguma vez pensado nisso a sério, teria feito
diferença? Mas a possibilidade de morrer a qualquer momento é tão realista, e
está tão presente que ninguém pensa nela. Afastam-se pensamentos sobre a morte
quando se está vivo, mas tecer estas considerações já morto é inútil.
Então quando? Quando podia eu ter decidido viver?
Viver de verdade, aproveitando dias e noites com a consciência da finitude, e
não com o medo do dia seguinte? Como poderia eu, em vida, ter realmente vivido?
E agora, morto, por alguma razão consigo ouvir os
meus pensamentos vivos e sentir a mais profunda solidão. Sabe-me bem esta
solidão serena e irremediável, até agora não está a ser muito mau estar morto.
Não tenho fome, sede, frio ou calor, não estou ansioso, não preciso de um comprimido à mão para pôr
debaixo da língua quando as horas me esmagam e o dia não tem piedade. Não ouço
as vozes, nem as ordens, ou as ameaças. É bom este silêncio na minha cabeça,
esta vontade de descansar, de parar, de ficar neste vazio como se tivesse
voltado ao início e pudesse começar de novo. Mas não posso. Eu já estou na
meta.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
O favorito do mês - Dezembro 2015
Quem me conhece sabe que não podia escolher outro para favorito. Em Teu Ventre, de José Luís Peixoto foi uma excelente forma de terminar um ano de leituras fantásticas.
Recomendo o livro e convido a ler a minha opinião aqui. Desta vez levam como bónus o video das fotografias (soa esquisito mas é isso mesmo) da apresentação da Moita. Com som se faz favor!
domingo, 3 de janeiro de 2016
Novos Habitantes - Dezembro 2015
O mês do Natal. Abençoadas todas as pessoas que não fazem ideia o que me oferecer e seguem as pistas que eu, desinteressadamente, vou deixando.
Bem hajam!
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Postais de Natal
Os postais estão prontos. Escrevi cada um
como se pudesse falar com o destinatário. Imaginei-nos sentados na minha sala,
eu na minha poltrona preferida, tomando uma bebida e fumando um charuto devagar
e com prazer.
Dediquei cada palavra escrita a essas conversas
imaginadas. O riso bom que, fechando os olhos pude ouvir. O sol entrava
impetuoso pela vidraça larga enquanto eu dizia à Joana, olhos nos olhos, que
lhe desejo o melhor Natal de sempre. Beijei-lhe as mãos com amizade e fiquei
mais um pouco com as suas mãos nas minhas, sentindo a retribuição das minhas
palavras.
As minhas mãos estão frias, aqui, onde não
chega o sol. A luz artificial, demasiado forte e branca, ilumina os envelopes
fechados. Levanto-me e percorro a minha existência em poucos passos. Ouço o
silêncio, duro e constante, apenas interrompido pelo som das gargalhadas
imaginadas dos meus filhos. Ou então, chamando-me à realidade, o momento em que
o guarda abre a porta da cela. Também lhe dediquei um postal de Natal. Se em
tempos tinha gosto de os partilhar com os colaboradores da minha empresa, agora
faço-o com aqueles que, curiosamente, trabalham para quem está preso.
O que mais me custou foi escrever com uma
esferográfica transparente de bico constantemente borrado, e ter de, no final
da escrita, abanicar no ar o postal de modo a poder fechá-lo sem esborratar as
palavras.
É a primeira vez que passo o Natal na prisão.
Não é assim tão mau. Habituei-me a dizer que está tudo bem. Já o faço de forma
automática e convincente, junto-lhe um sorriso não demasiado rasgado, mas bem
treinado, e prossigo contando às visitas que estou a rentabilizar o meu tempo,
agora que os dias estão todos por minha conta. Digo-lhes que vou escrever um
livro, um romance sobre as minhas viagens. Mas no silêncio da noite, na minha
cela nua, eu sei que todas as palavras que escrever denunciarão o meu fracasso.
Amanhã a Joana deve vir, como faz todos os
Domingos. Sou eu que lhe seco as lágrimas enquanto mostro, forte, que estou
bem. Depois regresso a este mundo fechado de solidão com vozes. Vozes que não
me soltam os pensamentos e que, no silêncio da noite, me falam gritando. Por
vezes, tal é a necessidade de esquecer, tomo um comprimido para dormir. Não me
lembro do momento de aconchego que separa o estar acordado do entrar, suavemente,
no limbo da inconsciência. Penso de forma nebulosa antes do tombo fatal para o
vazio de uma noite negra e pesada, sem sonhos, sem memórias ou sensações.
Apago-me neste Natal que não quero viver.
Pai Natal, para mim, uns comprimidos para a
tristeza, por favor.
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